Valor: Gestora de ações revende cosmésticos e vai ao shopping

Maio 2017

O que leva uma gestora de recursos a matricular dois politécnicos em faculdades privadas? Ou colocar um jovem analista como revendedor de produtos Natura e Avon? Outro para contar sacolas da Renner e da Riachuelo num shopping center? E por que não aproveitar a ida ao centro de compras para conferir o número de carros no estacionamento?

Para além dos gráficos e planilhas de Excel, esse modo de investigar empresas faz parte do processo de investimentos da Constellation. Com um patrimônio de cerca de R$ 3 bilhões, a gestora paulista nasceu em 1998 como um fundo proprietário da Utor Investments para gerir recursos de ex-controladores do Garantia, em renda fixa e variável.

Os sócios eram Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira o trio que mais tarde formaria o grupo 3G Capital. Quando houve a cisão do portfólio de ações, em 2002, que deu origem à Constellation, Lemann permaneceu como minoritário e o time de renda variável, liderado por Florian Bartunek, ficou no comando. Foi a partir daí que passou a captar recursos de clientes externos. Desde 2007 tem como sócio minoritário o bilionário "hedge fund" americano Lone Pine Capital, que reúne patrimônio de cerca de US$ 25 bilhões.

Em maio, ao completar dez anos com seu primeiro fundo de ações na rua, a Constellation "ganhou de presente" a delação do empresário Joesley Batista, do grupo JBS, que colocou no centro da crise política o presidente Michel Temer e arrastou os ativos brasileiros. O portfólio balançou, as cotas se desvalorizaram 2,6% no mês, mas ainda assim o fundo acumulava retorno de 13,06% no ano até o dia 6, enquanto o Ibovespa subia 4,5%.

É mais uma crise para o currículo de Bartunek, que diz que, invariavelmente, a cada ano, o Ibovespa vai enfrentar pelo menos dois intervalos de perdas da ordem de 10%, com alguns caindo mais. O "circuit braker" de 18 de maio, quando o índice recuou 8,8%, foi um desses episódios. Haverá outros. Mas ao seu ver, o ruído político em meio ao julgamento da chapa DilmaTemer pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ou algum outro imbróglio que retire Temer do poder, não muda o vento a favor de uma recuperação cíclica que parece estar a caminho.

"Os fundamentos de melhora no lucro das empresas continuam, mas talvez a velocidade seja um pouco menor", diz. Embora lide com cenários alternativos mais adversos, o gestor considera como o mais possível o de recuperação gradual da economia e dos resultados. "Estou pensando em trimestres, não no TSE desta semana; isso é relevante no curto prazo, mas no médio e longo prazo a economia está tão fraca, as companhias tão desestocadas, que há uma reação. A recuperação do PIB agrícola é um sinal disso." Juros e inflação para baixo ajudam nessa leitura.

Mas por mais que os clientes queiram discutir o cenário macro ou político, para onde vai o dólar, os juros, o que faz diferença, afirma, é o "stock picking", a seleção de ativos com alto potencial de ganhos. É ir a fundo nos fundamentos, eleger três ou quatro fatores que sejam chave para o destino do negócio e acompanhá-los com disciplina. Para ele, é isso que faz um gestor de ações sobreviver a tantas intempéries num país com escassa cultura de renda variável. Na Constellation, o trabalho do analista consiste em entrevistar pelo menos 15 pessoas de fora da companhia alvo e 5 dentro dela. E isso inclui a pesquisa de campo.

Na Kroton, por exemplo, os elementos monitorados enquanto teve o papel em carteira incluíam a dinâmica do Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies), a qualidade do ensino e a cobrança. Antes de investir na companhia, matriculou um profissional da casa numa faculdade do grupo e outro numa da concorrente. Meses depois parou de pagar as prestações. Enquanto a área de cobrança da primeira ligou para perguntar o que estava havendo com o estudante inadimplente, a outra não deu muita bola para o atraso.

À compra dos papéis da Natura, anos atrás, precedeu colocar um analista como revendedor de cosméticos da fabricante e também da Avon, a fim de avaliar a logística, pontualidade e apresentação dos produtos entregues. Segundo Bartunek, enquanto a primeira entregava as encomendas dois dias depois, bem embaladas, a outra demorava até oito dias, e a embalagem vinha, às vezes, amassada. No shopping center mandava um emissário para contar as sacolas das varejistas alvo do interesse e questionar por que o consumidor tinha escolhido fazer compras na Renner ou na Riachuelo.

"Isso tudo traz muita informação, não é poesia. Nos dá segurança porque no dia em que a ação da Renner cai ou a da Guararapes cai, tem que ver o ruído, avaliar se não mexeu com o fundamento." O processo é importante porque o ser humano naturalmente tem viés, o que costuma ser bom para se proteger de perigos iminentes, mas no mundo dos investimentos pode atrapalhar. "Você ouve um barulho na moita e sai correndo porque pode ser um tigre que vai te comer, mas no mercado, às vezes, é uma besteira, e você sai vendendo. A gente gasta tempo não só olhando, mas acompanhando as companhias para separar o que é ruído e o que é fundamento."

O processo de seleção pode levar seis meses, um ano. No radar, estão cerca de 150 companhias, com cerca de três dezenas na carteira. A proximidade com a gestão da empresa é valorizada e, em alguns casos, isso inclui ter um assento no conselho. Em abril, Bartunek passou a integrar o grupo de minoritários na B3, a companhia resultante da fusão da BM&FBovespa com a Cetip. Já participava do conselho da Aliansce Shopping Center. A intenção, afirma, é ter uma interação colaborativa. "Eu acho que toda empresa se beneficiaria de ter um minoritário no conselho, porque ele tem o dinheiro na mesa, tem os melhores interesses na operação porque só vai ganhar se a empresa for bem."

Na seleção de ativos, a preferência é por empresas líderes nos seus setores, que tenham barreiras de entrada, boa rentabilidade, com o filtro passando pelos executivos que tocam os negócios, e, por fim, os múltiplos. No fim de abril, as principais posições na carteira incluíam B3, Itaú, Fleury e Bradesco, segundo a Morningstar. O segmento de serviços financeiros representava 36,6% do portfólio.

Bartunek diz não ter preconceito com ofertas iniciais de ações (IPO), apesar de ser nos momentos de maior euforia com bolsa que os empresários aproveitam para captar, e naturalmente são eles que detêm mais informações sobre o negócio. Natura e Localiza foram exemplos que entraram no portfólio quando estrearam no pregão e renderam bons frutos. Mais recentemente, avaliou a operação da empresa de diagnósticos Aliar, mas concluiu que o papel estava caro, dando preferência à ação da concorrente Hermes Pardini.

A equipe de 22 pessoas (12 sócios) tem 10 analistas. Mas mais difícil do que comprar uma ação, diz, é o momento de vender. Isso ocorre quando um papel que pretendia manter por anos sobe rápido demais, daí a alternativa é diminuir a posição. Quando há mudanças no comando da companhia, isso também pode levar ao desinvestimento. E a entrada de um novo concorrente pode mudar tudo. Ele cita o caso da Natura, que já teve uma participação de mercado mais relevante e perdeu espaço com a entrada do grupo Boticário no segmento de fragrâncias e a disseminação da venda de cosméticos em farmácias.

Desde que foi criado, em 2007, o fundo de ações mais antigo acumulava, até o fim de maio, valorização de 253%, em comparação a 30% do índice. Só teve três anos de desempenho negativo: em 2008 (40,9%), com a crise que sucedeu a quebra do Lehman Brothers; em 2011 (14,8%) e, em 2015 (5,66%), no pré-impeachment de Dilma Rousseff. Foi nesse período que a gestora perdeu mais de R$ 600 milhões em patrimônio. Segundo o sócio Fabio Dall' Acqua, só agora o desconforto com o Brasil começava a se inverter, com os estrangeiros voltando a conversar sobre alocação. "São processos decisórios mais lentos, sem muita pressa."

Fonte: http://www.valor.com.br/financas/4998580/gestora-de-acoes-revende-cosmesticos-e-vai-ao-shopping?utm_medium=Social&utm_campaign=Compartilharnet.whatsapp.WhatsApp.ShareExtension#

Valor maio 2017